Seminário destacou impacto do racismo contra pessoas LGBTI+ e reforçou urgência de políticas interseccionais

O Rio de Janeiro viveu, nesta quinta-feira, 20, um dos momentos mais contundentes da programação que antecede a 30ª Parada do Orgulho LGBTI+ Rio. O Seminário: Orgulho LGBTI+ e Consciência Negra, realizado no Theatro Municipal, reuniu lideranças, pesquisadores e ativistas para escancarar uma verdade que as estatísticas já comprovam há anos: quando racismo e LGBTIfobia se cruzam, a violência se aprofunda – e os corpos negros LGBTI+ seguem na linha de frente da vulnerabilidade.

Ao longo do encontro, dados recentes do Dossiê ANTRA 2025 e do Atlas da Violência reforçaram a urgência do debate. Em 2024, 78% das vítimas de assassinato na população trans eram pessoas negras, proporção que se mantém estável há quase uma década. Na população geral, negros representam 77% das vítimas de homicídio no país. Entre mulheres lésbicas, especialmente as negras e periféricas, a violência permanece invisibilizada, manifestando-se em estupros corretivos, expulsão familiar e barreiras institucionais no acesso à saúde e à justiça.

Essas estatísticas deram o tom das reflexões do dia — e foram sintetizadas com potência na fala de Cláudio Nascimento, presidente do Grupo Arco-Íris e coordenador geral da Parada, que enfatizou a necessidade de enfrentar o que ele chamou de “ferida não cicatrizada” dentro e fora do movimento.
“Hoje a gente tem o início de um projeto belíssimo chamado Pretos Coloridos, que é só o início de tudo. Sei que eles vão fazer muito sucesso, e que vão circular pelo Brasil e pelo mundo. E a gente se preocupou em produzir um evento que conectasse consciência negra e orgulho LGBTI+. Como uma pessoa nordestina e negra, sei o quanto racismo e LGBTIfobia ainda são muito pesados para a nossa comunidade. Quando eles se encontram, produzem mais prejuízos e mais dores”.

Cláudio destacou ainda que o letramento racial e a compreensão plena da interseccionalidade ainda não atravessam o movimento como deveriam: “não é um debate consolidado nem inteligível para toda a comunidade. Precisamos avançar na discussão sobre gênero, orientação sexual, cor e raça. Todos os dados mostram que pessoas LGBTI+ negras são as que mais sofrem com a violência e o preconceito”.

A presença de figuras como Marcelle Esteves, Jaqueline Gomes de Jesus, Michele Seixas, Benny Briolly, Fernanda Machado, Théo Silveira, Denise Taynáh e o coletivo Pretos Coloridos evidenciou a pluralidade das frentes de resistência — da produção acadêmica aos mandatos políticos, do ativismo de base à arte como ferramenta de denúncia.
O Prêmio Arco-Íris de Direitos Humanos
A programação segue com um dos momentos mais importantes da semana: O Prêmio Arco-Íris de Direitos Humanos – 30 anos da Parada do Rio, na sexta-feira (21), às 19h, no Teatro João Caetano. A premiação reconhece personalidades, instituições e projetos que atuam de forma decisiva na promoção dos direitos LGBTI+, no combate à discriminação e na construção de políticas públicas efetivas.